Inventario 3
25 diciembre 2016

15 cajas de acrílico tallado estilo puntaseca, tinta y objeto.
15 x 45 x 7 cm.
2013
Há um quê de passado, de outrora, que transborda desde essas linhas precisas, feitas com ponta seca. A ausência da cor é um indício que o pretérito ali se instalou.Talvez por isso, os acrílicos em forma de caixa se pareçam tanto com a morada de Clio.
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É fato que há muito a deusa da História desviou-se de
Mnemosyne. Foi navegar nas águas turvas do rio Lete.
Ao menos desde o início do século XX, das guerras e dos genocídios em massa.
Lá, nas águas de Lete, Clio aprendeu a esquecer.
O que resta de Auschwitz senão a presença incômoda
de um rio de memórias? O que fazer com todo o inventário das atrocidades cometidas sob os auspícios da “banalidade do mal”?
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Os avós de Elián eram imigrantes judeus provindos da Polônia. Cruzaram o largo Atlântico até o extremo sul da América Latina. El Uruguay.
As imagens grabadas/gravadas sobre o acrílico são oriundas de fotografias desses antepassados. Sintomaticamente, elas não nos são inteiramente dadas a ver. Apenas frações, pedaços (imagens esquecidas de partes de si).
O verbo grabar/gravar – em espanhol e em português – tem acepções múltiplas. Desde o gravar na memória (de alguém, um grupo social ou um computador) até o gesto de gravar linhas sobre uma superfície (base para a tradição da gravura nas artes). desde Montevideo, Élian nos traz 15 acrílicos tallados a mano.
Trata-se do terceiro ato de uma série de exposições que a artista vem trabalhando há alguns anos, segundo aquilo que ela chama de “cadeia de inventários”: “São pedaços de imagens, desenfocadas, apenas pequenas partes (por exemplo, se na foto há duas pessoas, enfoco uma parte que não são os rostos, ou algo secundário que até pode se parecer com algo abstrato).
É o modo como considero ser as lembranças. Frações que nos ficam, que remendamos com a ajuda do presente e do que queremos e desejamos do futuro”.
A quem mesmo o futuro pertence?
Texto curatorial de Fernando Boppré